Friday, September 30, 2016

Dos vilões que criamos


A gestação nos seres humanos dura de 37 a 41 semanas. Os médicos devem ter as suas razões para usar esse sistema de medida, mas o problema é que eu sempre me perco em contagens que não se usa meses. Pelo menos com gravidez. E apesar de 9 meses ser o tempo esperado, tratava-se com maior risco os nascidos com 8 que com 7 meses. Foram exatos 8 meses entre o primeiro oi e o primeiro beijo. E eu fiquei receoso com o risco que esse tempo de espera causaria. Há coisas que a gente escuta quando criança e reproduz a vida inteira, não importando se é verdade. No início eu quis odiar o tempo, até você jogar a culpa nas distâncias geográficas. O engraçado é que a minha vida toda eu trabalhei com pesquisas com insetos. Algumas das minhas vespas não vivem mais que duas semanas. Já as minhas joaninhas podem sobreviver tranquilamente por até 4 meses. O tempo é relativo.Então não seria exagero eu dizer que te esperei uma vida inteira. Os cientistas anunciaram que em menos de 50 anos, Tuvalu desaparecerá completamente do mapa. O aumento do nível dos oceanos devido ao aquecimento global vai acabar deixando toda uma nação submersa. Não há nenhuma região em Tuvalu que ultrapasse quatro metros e meio. Os habitantes não interromperam as rotinas diante o fim anunciado. De alguma maneira eles sempre souberam que o fim chega ainda que não premeditado. Estamos a 2.300km de distância ou 32 horas de carro. Eu sempre achei horas era a forma mais justa de calcular a distância. De alguma maneira eu sempre culpei os números, mas é bobeira achar que toda história precisa ter um vilão. Há 53 companhias aéreas só na América do sul. Um trem bala no japão alcançou a velocidade de 603 km/h.  O olho humano é capaz de enxergar até 5 km de distância. Por ano são lançado mais de novos 20 mil filmes. Cerca de 140 mil pessoas circulam diariamente pelo aeroporto de Guarulhos. 8 de setembro 2 deles éramos nós. Viram como os números podem ser positivos? O nosso vício por filme de terror fez com que a gente tentasse encontrar vilão para tudo. 

Por você eu passei a odiar o fim dos filmes no cinema. Não por qualquer furo no roteiro. Não por sensibilidade as luzes da sala. Mas é que os créditos do filme anunciavam a separação das nossas mãos. Cada qual voltando a pertencer a seu corpo e só restava sal de pipoca nos meus dedos solitários. Não é culpa minha. Perdoe. Você disse que a gente é muito diferente pra ficar junto. A diferença já começa ai. Para mim, é ela a razão da gente não se separar. Eu tenho medo de dirigir, enquanto você dirige com tranquilidade. Você não gosta de pedir informações, enquanto eu sempre tenho assuntos com estranhos. Separados você erra o caminho, enquanto eu vou devagar. Fique. A polícia não está atrás de nós. As pessoas ao nosso redor perderam o interesse sobre a nossa história. A gente não precisa mais de álibis ou razões super fundamentadas seja para ficar ou para partir. Percebi que você emudeceu quando eu usei suas palavras como dividas. Procurei sua voz perdida em todos os bolsos de todas as calças, nas aberturas das malas, embaixo da cama. Não achei. Você não responde, mas me ouve. Fique. Uma parte de mim tenta desesperadamente lutar contra o tempo. O sol insiste em nascer cedo mesmo estando no inverno. Fecho as cortinas na esperança de enganar o tempo. É inútil. No filme que te presenteei, Thomas pede Veda para pensar nele se nada der certo com professor Bixler. Ela pensaria. Ela disse que sim. A gente sabe que pensaria. Os autores fazem a gente acreditar nisso. Mas Thomas morre picado por abelhas antes dela desistir do professor Bixler. Eu tenho mania de me apropriar de falas de filmes e repeti a mesma frase a você. Ao invés de sim, você perguntou quem era Bixler. Eu ri, mas por dentro senti uma pontada na barriga com medo de ser Thomas. Coloquei a culpa nas abelhas. Uma amiga disse que essa pontada é paixão. Que há toda uma explicação fisiológica e hormonal, me mostrou gráficos sobre picos de adrenalina e todas reações que ela causa em nosso corpo. Adrenalina causa dependência. Talvez a culpa seja minha. Minha, da superproteção de minha mãe e do meu medo de altura. Eu passei uma vida me privando de picos de adrenalina e agora estou viciado nas pontadas na barriga que sua presença me causa. Um livro de autoajuda me aconselhou a te esquecer. Mas eu não quero. No lugar eu recomecei a contagem. Eu me fiz a mesma pergunta mil vezes: Onde ir com alguém que já conhece tantos lugares? Só restava meu mundo. Meus amigos, minhas manias. E de perto não somos tão diferentes assim. Hoje você já assiste séries e eu como chia. Nas aulas de morfologia, aprendi que as abelhas morrem quando picam. O ferrão é um prolongamento do abdômen que se rompe no momento em que a abelha abandona a vítima. Se as abelhas também morreram, quem seria nosso vilão?

(Vinícius D'Ávila)
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Monday, June 02, 2014

Eu, Mãe Preta, e todas as histórias que um dia ela contou



“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor.” 
(Oscar Wilde)

Nasci no interior, mas toda vez que digo isso na capital, as pessoas imaginam que tenha sido em uma cidade pequena. Mas era ainda, mais no interior. Meus pais eram caseiros de uma fazenda em que se produzia café, e minha mãe era tão presa aquele local, que não quis sair nem para o meu parto. Filho único, vitorioso, de inúmeras gestações complicadas. Depois que eu cresci, minha mãe dizia que eu era um milagre, nunca compreendi. Naquele local, as opções de diversão eram limitadas, ainda mais com meu tempo consumido em ajudar meus pais e na falta de adolescentes da minha idade. Havia alguns mais novos, e outros mais velhos, mas eu estava isolado com meus solitários 15 anos, tendo que enfrentar todas as dúvidas e dificuldades que todo adolescente passa, porém sozinho.

Quando mais novo, os filhos do dono da fazenda, que tinham idades próximas as minhas, passavam as férias de verão por lá. Criança não consegue distinguir classe social e ensinávamos uns aos outros, nossas brincadeiras favoritas. Entretanto, e mesmo com tantas brincadeiras inventadas quando criança, o que mais me agradava, era ouvir as histórias de Mãe Preta. Ela não era minha mãe biológica, e nem era mais escura que minha verdadeira mãe, mas eu aprendi a chama-la assim, já que todos da casa grande, assim o faziam. Ela era a cozinheira da fazenda no verão, quando a família do fazendeiro passava as férias escolares das crianças por lá. Todos se reuniam na cozinha, próximo ao fogão de lenha, e sempre que eu chegava em casa, minha mãe olhava para mim dizendo: 

“Tava escutando mais histórias de Mãe Preta, né? Se ficar sem dormir, apanha!”

No começo eu ficava surpreso em como minha mãe sempre adivinhava, mas era ingenuidade da minha parte não perceber que ela só associava o fato a minha bermuda suja de fuligem. Mãe Preta dizia que eu precisava aprender a ler. Que ela não sabia, que as histórias que ela contava, ela ouvia quando criança ou presenciou, mas um dia segurou em minha mão e me levou ao escritório da fazenda para me apresentar a alguns livros. Pode parecer bobagem, mas eu nunca havia visto um. E ela me entregou um deles, dizendo que havia muito mais histórias e qualquer dúvida que um dia eu viesse a ter, estava respondia por ali. Na beira do fogão, ela contava sobre sacis, sereias e mula-sem-cabeça, e ao voltar para casa, eu não dormia. Não era medo, era porque eu me questionava o porquê nunca encontrar com as coisas de que ela falava. Eu sempre quis provar se as histórias eram mesmo reais.

Certa vez minha mãe precisou me buscar de madrugada na beira do riacho, enquanto eu esperava o canto de uma sereia. Depois de me dar uns tapas, ela me explicou que sereias não existiam, e as histórias são apenas lendas. Senti traído por Mãe Preta e me odiei por ficar tentando descobrir a verdade, enquanto todos sabiam que era mentira. Meses depois Mãe Preta morreu de chagas. Na época, minha mãe apenas me disse que era “problema do coração”, e para não mais nada dizer, ela me abraçou. Foi o melhor abraço que já havia recebido, e por mais que minha mãe me abraçasse todas as manhãs, aquele abraço era diferente. Ainda que nos seus últimos dias de vida eu não mais a visitasse por histórias, eu acabei sentindo falta delas. Com o tempo também, os filhos dos patrões já não mais achavam graça passar as férias no sítio e como não havia mais pessoas da minha idade, o sentimento de solidão tomou conta de mim.

Foi no verão de 99, quando eu já beirava os 16, que o filho mais novo do patrão chegou sozinho para férias. Eu lembrava dele muito criança, e quase não o reconheci, já que apesar de ter também 16, era mais alto e atlético. Em um dos primeiros dias, ele me gritou lá em casa convidando para andar a cavalo. Ele havia se esquecido como se colocava uma sela e precisava de minha ajuda para não cair. Cavalgamos até o riacho que eu um dia acreditei existir sereia e quando já estávamos exaustos de tanto nadar ele começou a me contar o porquê estava ali. “Problema com o coração”. Disse ele, me deixando preocupado, achando que padeceria do mesmo mal que padeceu Mãe Preta. Ele começou me contar de uma menina, que havia se apaixonado, mas que ela havia terminado com ele ainda com um mês de namoro. No mesmo instante, lembrei de quando reunia aos pés de Mãe Preta para ouvir histórias que eu nunca havia vivido, e enquanto ele contava, eu me questionava, se essa história, não era também mais uma lenda. Eu não entendia de amor, de dores, romances. Nunca havia beijado ou visto tevê. Meu dia se resumia em ajudar meus pais e todos os casais que eu conhecia já estavam juntos quando eu havia nascido. Eu nunca havia sentido nada parecido por nenhuma menina, mesmo porque, não havia nenhuma menina por ali para eu poder sentir. Por não saber o que dizer, eu o abracei. Foi então que ele chorou, e eu então comparei a dor da perda dele, com a dor que senti quando me falaram da morte de Mãe Preta. Eu disse a ele que entendia, mas na verdade estava longe de compreender, afinal, a menina não havia morrido e eles novamente poderiam se ver.

Em um dos últimos dias de férias, apostamos uma corrida até o celeiro, e primeiro que nós dois, quem chegou foi a chuva. Sentados no chão, abrigados, esperávamos a chuva passar, enquanto víamos o céu escurecer. Levantei para procurar fósforos, e enquanto eu tentava acender um lampião, tomei um susto quando o vi parado próximo a mim. Ele me segurou pela cintura e me beijou, logo eu que nunca havia beijado ninguém. O meu interior dizia para que eu o empurrasse, porquê eu sempre ouvia meu tio falar de Deus, e ele era o homem mais religioso que eu conhecia e eu sabia que era pecado, não queria acabar indo para o inferno. Algo em mim mais forte pedia para que ele beijasse mais, que nos abraçássemos, e passássemos aquela noite ali.

Quando amanheceu, ao meu lado só havia um lampião apagado e nenhum rastro de onde ele estava. Vesti minhas roupas e corri a procura dele. Ainda que eu hesitasse em entrar na casa grande, após a morte de Mãe Preta, resolvi começar por lá. Ao encontrar o pai dele, fui avisado que ele havia voltado para cidade, mas que nas próximas férias, talvez voltaria. Nunca mais tive notícia dele, mas aquela noite gerou tantos questionamentos internos, que me deu força para não deixar que eu fizesse como minha mãe e traçasse meu destino eterno ali. Mas infelizmente, eu nunca mais tive notícias dele. Porém, pela primeira vez, eu comprovei que uma história contada a mim era real. Porque a mesma tristeza que ele carregava ao chegar, ficou comigo quando ele partiu.

(Vinícius D'Ávila)
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Wednesday, September 25, 2013

De 7 em 7 anos


Demorei duas estações para lembrar seu nome. “Era um nome de gente velha, nome de gente velha”. Fiquei repetindo para mim até que veio em minha cabeça. E lembrei junto da frase que eu disse quando você o falou para mim: “Seu nome te envelhece sete anos”. Você riu e eu meio que presunçosamente constatei que havia te interceptado bem. Talvez por coincidência, você havia envelhecido sete anos desde a última vez que eu te vi, e eu também. Você interrompia o que lia, olhava para o ar condicionado, se ajeitava num incomodo simbólico de quem sentia frio, e voltava a ler. Eu olhava para você fingindo que estava perdido no meu pensamento com o olhar fixo em algum ponto aleatório, para que não percebesse que simplesmente eu olhava para você. O metrô estava vazio, então raramente alguém se posicionava em minha frente. Você era minha paisagem daquela viagem.

Eu não deveria perder tempo, pois em qualquer uma das próximas estações você poderia descer, mas de onde tirar coragem para me aproximar e perguntar: “Se lembra de mim?”. Teria a opção de não se lembrar, o que não seria totalmente ruim de fato, mas e se lembrasse mas preferiu não dizer?

Você era mais velha. Em uma das minhas primeiras festas de república, quando eu ainda não sabia que misturar cerveja e vodka dava merda e meu peso me classificava no grupo de subnutridos, você estava lá conectada com todas as pessoas carregando uma gaita no bolso e se pondo a tocar quando os assuntos acabavam. Quando você sorria, um furinho se formava em cada bochecha, que se escondiam por trás de suas mãos na tentativa de bloquear o vento e acender seu cigarro. Você coçava o queixo com o polegar, porque com o indicador e o dedo médio, você segurava seu cigarro. E antes da próxima tragada, você mordia o próprio lábio inferior, e depois passava a língua por eles para que não ficassem ressecados.

Você terminando a faculdade e eu começando a minha.

Cigarro, maconha, bebidas, banda de reggae, poster da playboy pendurado na parede da sala, gente abrindo cerveja com os dentes, meninas se beijando na fila do banheiro, meninos vomitando por de trás do carro, tudo aquilo era tão desconhecido para mim e você que parecia ser tanto daquele mundo, que eu tive vontade de te parar e pedir que me guiasse. Mas foi você que veio me perguntar onde ficava o banheiro. Foi ai que conversamos e mesmo sem nenhuma vontade de urinar, me posicionei atrás de você na fila. A menina na sua frente pediu para que segurasse um copo, além do seu. E você tentava me falar de seus planos agora como jornalista formada, mas sem poder gesticular.

Hoje em dia eu entendo a significância de ir em festas e beijar um número maior de pessoas do que eu sou capaz de contar e ir embora sem saber  qual delas era Maria e qual era Ana. Mas naquela época, quando eu ainda não havia amado ninguém, quando meus amigos do ensino médio só tomavam coca-cola e quando os únicos beijos dados haviam sido na porta da igreja esperando o ensaio do coral, você teve um papel significante no meu baú de boas memórias. E o meu medo era constatar que eu havia apenas sido um dos meninos sem rosto que você beijou.

Porque sim, nos beijamos. Rapidamente, mas nos beijamos. Uma chuva fez com que a festa acabasse e eu bêbado, fui facilmente guiado pelos meus amigos para dentro do carro olhando por você perdida tentando escapar dos pingos de chuva. Mas antes disso, você fez com que eu abrisse a mão e da bolsa de pano que carregava de lado tirou uma caneta ponta fina, caneta de quem desenha enquanto não se faz nada, e anotou seu telefone e me pediu que ligasse.

Quando liguei me contou da sua semana agitada, mas me confortou com uma quinta-feira livre. Foi só ali, por telefone, que me confessou que estava indo embora do Brasil. Fazer mestrado, estudar cinema, virar dançarina, não me lembro.

O problema foi que você nunca apareceu no encontro marcado e aquela quinta-feira lidera como uma das mais tristes, em que eu, sozinho, sentado, tentava inventar desculpas por você não ter aparecido. Numa época em que não éramos rodeados por redes sociais nem promoções de celulares, fiquei sem ter notícias. Sem amigos em comum, sem festas para nos reencontrarmos ao acaso, sem fotos para relembrar das covinhas, sem uma oportunidade para te mostrar que eu não só havia aprendido a fumar, mas falava dez palavras sem soltar a fumaça da boca, você foi morrendo em mim.

E distantes da nossa terra natal, e na infinita opções de cidades que poderíamos estar e na absurda quantidade de trens que poderíamos ter pegado, na diversificada escolha de vagão para entrar, estávamos lá. Frente a frente. Mas qual atitude tomar?
           
Você já devia ter 30, se vestia de uma maneira mais formal, mas estava ainda mais bonita. No segundo que criava coragem para te abordar, criava um discurso em minha mente, que se diluía no segundo seguinte, quando eu desistia do plano. Porque havia duas opções: que se lembrasse ou que não se lembrasse. Se não se lembrasse, não haveria o porquê de tal abordagem. Mas se lembrasse, haveria novamente duas opções. De não ter me abordado porque não ligou o garoto de ontem ao homem de hoje ou a importância dada ao fato não era realmente a mesma minha. Se minha efêmera passagem pela sua história não havia tido importância, também não haveria o porquê de tal abordagem. Mas se não conseguiu me reconhecer, levantava em mim um novo questionamento: Será que queríamos mudar a imagem que ficou de 7 anos antes? Mesmo sem termos nos despedidos, julgava nossa história bonita demais para mudar o final.

Eu assumi o risco, criei coragem, decidi. Mas o mundo me deu coragem na mesma estação em que você precisava descer. O metrô parou, as portas se abriram, você guardou o livro na bolsa, levantou, ajeitou o casaco e saiu. Assim que as postas se fecharam, antes do trem sair, você olhou para trás e sorriu para mim. 
(Vinícius D'Ávila)
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Friday, August 02, 2013

O Marinheiro Fiel




Dizia que se pudesse nascer de novo, queria ser relógio.

Ainda que tentasse dormir mais cedo, tinha dificuldades para lidar com despertadores. Depois de um dado tempo, o barulho repetido de todas as manhãs passava a ser parte do sonho com mais facilidade do que interrompe-lo, fazendo com que não diminuísse o hábito de estar sempre atrasado. Quando mais jovem, seu pai adiantava todos os relógios da casa no intuito de corrigir esse seu defeito. Entretanto, o efeito foi reverso, depois que descobriu isso, se permitia sempre atrasar um pouco mais, já que mentalmente passou a atrasar todos os relógios e se pudesse, atrasava até o sol.

Nunca foi muito bom com encontros, horas marcadas e pessoas pontuais. E talvez se naquela segunda tivesse acordado 15 minutos mais cedo ou se tivesse sacrificado os preciosos minutos que gastava toda manhã se satisfazendo do simples prazer de continuar deitado na cama, não teria se separado de sua família.
Foi um tremor que surpreendeu de geólogos a paranormais. Os resultados superaram as expectativas dos pessimistas. O mundo foi dividido em várias partes, sabe-se lá quantas. Dezenas, centenas, milhares de novos países se formaram. Pedaços de terras que antes eram um só continente resultaram em inúmeras ilhas separadas por incalculáveis distâncias d’águas.  Parecia que Deus estava entediado e resolveu brincar de remodelar o mundo.

O mundo que naquela época ainda tinha escassos meios de transporte e comunicação, acabou se tornando um cemitério de corações abandonados. Noivos que não se despediram, mães que não deram adeus, o jardineiro que perdeu suas flores. Dizem até que um pai desesperado ao descobrir que esposa e filhas haviam partido, se jogou no mar e tentou a nado ir atrás delas. Nunca mais foi visto.

Naquela manhã sua família havia levantado mais cedo para a comemoração octogenária da sua avó no sitio da família. Na mesa da cozinha apenas um bilhete da sua mãe, que seriam até então suas últimas palavras:

“Não demore chegar, estamos te esperando.”

Isolado, com tempo de sobra para pensar no que faria daqui pra frente, olhando para o mar sem fim, tentado adivinhar para que direção o pedaço de chão com sua família havia se deslocado, procurava uma solução que não fosse se afogar no mar. O bilhete da sua mãe ganhou voz, e essa voz passou a ser seu despertador. O terremoto pode ter durado apenas alguns segundos, mas mais do que terra, o espedaçou em tantas partes, que era difícil diferenciar entre tantos restos, o que era coração e o que era saudade.

Juntou todas as economias e comprou um barco. Queria ele ter nascido depois de Santos Dumont ou na era do teletransporte, agora sua esperança se resumia em um barco e seu receio na sua falta de conhecimento em navegar.

Foi em todos os portos, todos os bares, todas as igrejas que profetizavam o apocalipse com seus fieis demonstrando fé em forma de vela, todas as pessoas nas ruas que aparentavam saber lidar com o remo. Chegou a encontrar meia dúzia de marinheiros, mas todas as suas tentativas foram em vão.

Deus parecia decidido em sua separação e o mar já não era mais o mesmo. Tempestades assustadoras afugentavam  os marinheiros que decidiam o ajudar, e voltavam para a terra no primeiro dedo d'água que ali entrava. E depois de tantas tentativas frustradas encontrou ali seu segundo dilema após a divisão do novo mundo: não tinha força para seguir sozinho,  mas precisava de alguém ao lado dele que não desistisse na primeira tribulação.

Num primeiro momento todos pareciam bem dispostos e animados com os planos que o jovem fazia, mas ai vinha uma onda, alguns raios, uma chuva de pingos gelados e as pessoas o abandonavam.

Ouviu dizer de um marinheiro fiel. Daquele que não desistia daquilo que se propunha a fazer. E o encontrou no primeiro lugar que o procurou. Estava em seu barco, ancorado em terra.

Um barco velho, surrado. Dois ou três tripulantes que tentavam com baldes retirar a água que havia entrado na última noite.  Velas rasgadas, remendadas, pedaços que tentavam ser inteiros. Nem precisava ser marinheiro para julgar que eles não conseguiriam chegar longe. “Elena” - escrito com letras prateadas do lado de fora indicava no nome de batismo.

Se apresentou e conversou com aquele marinheiro. Receptivo, sorria enquanto o jovem abandonado contava sua história. E quanto mais eles conversavam, mais o jovem tinha certeza que o dono de Elena era a pessoa certa para seguir com ele. E com a ansiedade de quem nasceu de seis meses, logo fez o convite.

- Vamos! Com Elena você não tem chances. Sozinho eu não consigo sair daqui. Vamos juntos, enquanto ainda é verão e podemos suportar as noites. Enquanto ainda somos jovens e não temos medo. Enquanto ainda não temos medo e temos tempo. Vamos! Ainda hoje! Porque amanhã não serei tão jovem, nem você.

E na calma como se desse uma boa notícia, o marinheiro respondeu:

- Se eu partisse junto contigo, quebraria o que lhe trouxe até mim. Ainda que o barco esteja afundando eu  não posso abandonar. Prefiro buscar motivos para continuar.

E naquele momento, lembrou-se que se Deus não pudesse o tornar marinheiro, que lhe tornasse relógio. Estava cansado. Cansado de chegar sempre atrasado: nos compromissos, nos lugares e nas vidas das pessoas.

(Vinícius D'Ávila)
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Sunday, April 21, 2013

O filho rebelde do rei



"Quiero hacer contigo lo que la primavera hace con los cerezos" 
(Pablo Neruda)


Você pode não saber, mas foi o meu maior incentivador para que eu começasse a ler. Eu sempre quis saber o que os jornais do reino falavam sobre você. “O filho rebelde do rei”, foi a primeira frase que li sozinha no jornal que meu pai trazia todos os domingos para casa, numa época em que sentada na cadeira meus pés ainda não alcançavam o chão.

A maioria das meninas da minha idade não sabiam ler e muitas delas nunca aprenderiam. A maioria das funções que seriamos designadas durante a vida dispensava leitura. Se considerássemos as que não eram do clero ou da nobreza, não restaria ninguém. Mas numa época sem heróis, com casamentos arranjados, onde era pecado assumir que sentíamos prazer entre as pernas e que meu maior ídolo era um beija-flor, você era o mais próximo que eu poderia chamar de sentimento.

Suas fotos eram tão bonitas que despertavam em mim vontades de fazer parte delas como se minha vida fosse incompleta por eu não ter fotografias a ponto de me julgar se era tão feliz assim também. Em uma nota curta você assumiu sua paixão por um livro chamado “O nosso amor a gente inventa” que me fez visitar diariamente por 7 meses o armazém perto de minha casa, em inúteis tentativas de conseguir uma amostra de algo que você gostasse. Porque tudo que você gostava era tão inatingível para mim, e eu tinha uma real necessidade em saber se tínhamos gostos parecidos ou tudo se resumia em nossa vontade de mudança, no meu e no seu desejo de não aceitar a vida que fomos acondicionados a ter. Você lutava por direitos iguais das mulheres, por liberdade, por chance de escolha.  Os jornais do reino contestavam assustados diante os seus pronunciamentos de recusa a um casamento arranjado pelos seus pais, se o rei um dia conseguiria te domar. Mas foi o rei que se deu por vencido, quando permitiu que usasse barba, antes de se tornar rei.

No dia do meu aniversário, o dono do armazém trouxe o livro que tanto pedi. E eu me permiti me posicionar no papel da mocinha vivendo aquele romance de mentira. Pois por mais que eu soubesse que os personagens eram inventados, o sentimento depositado ali era real. O problema foi que cometi um pecado imperdoável. Li as duas páginas do fim, enquanto ainda estava no meio do livro. E por saber que eles não terminariam juntos, por saber que não suportaria acompanhar essa separação, eu interrompi o livro ainda na metade quando eles ainda eram felizes. De alguma forma eu acreditava na minha capacidade de mudar a história e os rumos da vida.

Por sua causa eu descobri que era apaixonada por barba e roupa xadrez. Ou era apaixonada por você que passei a procurar em outros características semelhantes a fim de suprir a falta que você me fazia. Talvez fosse só uma atração física, mas eu te imaginava de uma maneira tão idealista que precisava te conhecer, nem que fosse para diagnosticar como um sentimento exagerado.

Surgiu um emprego no reino. Precisavam de alguém que cuidasse do campo de cerejeiras, e me confortava a ideia de que eu faria parte da sua vida ainda que fosse para ser um enfeite de seus bolos. Talvez inicialmente você nem tenha me notado! Mas estava lá, no aniversário da Rainha, sua mãe, a imaculada cereja que eu colhi. As fotos eram em preto e branco, mas eu enxergava as cores vermelhas nela, e mesmo sem compreender, eu sentia que assim eu era mais feliz.

Ouvi um miado um dia andando pelo campo, quando me deparei com você sentado próximo a gata de sua irmã, prestes a ter cria. Você me perguntava o que precisava ser feito e eu entendia sua vontade de querer ajudar, mas tentei te explicar que o melhor ali era não fazer nada. No momento certo todos os gatinhos conseguiriam sair e talvez se você ajudasse poderia até tirar um antes da hora. E você sorriu e disse que ela segurava sua mão e eu fiquei estática. Admirada com a cena que presenciava. Se eu soubesse pintar, faria um quadro naquele instante e venderia por um valor tão alto que nem os filhos dos meus filhos precisariam trabalhar. Mas eu era egoísta demais e quis guardar aquela cena só para mim.

Depois daquele dia você passou a me visitar sempre no campo de cerejeiras. Em sua primeira visita ainda era verão e as cerejeiras não estavam floridas. Eu esperei ansiosamente pela primavera para que visse a mudança que o tempo fazia com elas, era essa a mudança que você fazia em mim. Pablo Neruda estava certo.

De certa forma sua presença virou rotina pro meu dia nascer feliz. E toda vez que eu pensava em você vinha um gosto súbito de cereja na boca. E toda vez que eu comia cerejas, eu pensava em você. É nocivo associar pessoas a gostos, cheiros e músicas. Corre o risco de ao odiar um, passar a repugnar os dois. E eu gostava tanto de cerejas.

Você insistia em não fechar todos os botões da sua camisa e eu me controlava em não olhar por dentro dela, não que eu achasse pecado, só não queria que percebesse. Você e sua mania de me dar bom dia com abraços apertados e eu me corava por não saber o que fazer com os meus, não que eu achasse tudo aquilo muito ousado, mas eu tinha uma mania de querer agradar você. Você e seu discurso entre a diferença de ser desejada e ser admirada, que admirava pessoas bonitas, mas desejava pessoas profundas, e eu percebendo aos poucos que minha vontade por você era maior que qualquer atratividade física e então me permiti expor todo meu interior no intuito de ser finalmente desejada. Você e todos seus casos escondidos com diversas plebeias do reino e eu a intocada, me questionando se isso era pior do que ser rejeitada antes do primeiro ato, encontrando uma razão além de amizades para colocar apelidos em mim.

Foi depois do grande baile de apresentação da princesa. Você chegou afoito sem conseguir descrever o quão estava encantado e mesmo sem nem conversar com ela, estava decidido que queria se casar. Era fácil entender, como não se apaixonar por uma menina de cabelos tão bem cuidados, pele sem manchas, mãos sem calos, numa beleza estupefata de mil rosas roubadas. Aquilo me despedaçou por dentro, não que eu não compreendesse a sua escolha obvia, qualquer um em seu lugar teria feito. O problema é que você me vendeu um personagem que era diferente de todos do mundo, não que ser igual a todo mundo seja algo ruim, mas eu comprei as ideias que você defendia e agora não sei o que fazer com elas. Suas ideias não correspondem aos fatos.

Talvez você fosse bonito demais para entender o que é rejeição. Novo demais por nunca ter ouvido um não e talvez por esses motivos achasse exagerado ou futilidade se me visse chorar diante de um beijo seus. E por me recusar a chorar diante de vocês, eu decidi ir embora deixando todas as cerejeiras para trás e um reino de bolos mais tristes. E era um direito meu não ser julgada como covarde por fazer isso.

Antes de sair, o ancião que cuidava das ovelhas e acompanhava minha história desde a minha chegada ao castelo, quis falar comigo. Acho que a idade traz uma sabedoria de permitir as pessoas a nos lerem por dentro. Ele trouxe um cesto cheio de frutas e jogou todas na mesa. Havia algumas que eu comia desde a infância, mas tantas outras que eu nunca havia comido. E insistiu que eu escolhesse uma, que não fosse a cereja. Que no mundo haviam mais frutas do que o cesto suportava, e que todas elas estavam ali esperando que eu experimentasse ou fosse atrás dela. Que eu não precisava ter uma só fruta favorita, que a gente enjoa de algumas e passar a gostar de outras e que tem frutas que dão só em determinadas épocas. E foi falando de frutas, que compreendi melhor de sentimentos e pude interromper o processo de putrefação por qual estava passando, e não me permiti me tornar amarga por inteiro, por inveja ou qualquer outra palavra que nos invade toda vez que somos rejeitados.

Na semana passada eu terminei de ler o livro. Aquele que o príncipe notificou que um dia já foi seu favorito. Sabe o que era engraçado? Eu não sofri com aquela separação. Não que eu estivesse mais forte, mas é que nas paginas que saltei aconteciam tantas coisas que eu dei razão ao autor e o final feliz mesmo era com eles não terminando juntos.

No mesmo dia a carruagem da princesa passou em frente a minha casa. Os murmurinhos chegaram até mim ainda que eu tampasse os meus ouvidos. A princesa havia decidido ir embora, ainda que o príncipe insistisse que ela ficasse. A rebeldia não a atraiu, e os motivos que fizeram ela chegar, não foram suficientes para que ficasse.


Senti uma pontada no peito. Não por compartilhar contigo qualquer sofrimento que você viesse ou não viesse a ter. Mas porque de alguma maneira, instintivamente, eu sabia, que no fim do jardim do reino, a última cerejeira começava a morrer. O tempo não para.
(Vinícius D'Ávila) 
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Friday, February 15, 2013

A carta que eu lhe prometi




"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão." 

(Carlos Drumond de Andrade)

Não estou querendo forçar nada, mas todos os aplicativos de redes sociais te apontam como a pessoa mais próxima de mim. Meus melhores amigos também concordaram, eu não sou tão legal para você me ligar tanto assim. Eu não entendo de moda, mas você quer porque quer que eu decida a sua roupa de sair. Você quer minha opinião sobre o seu futuro, e eu nem sei o que vou almoçar amanhã. Você quer que eu ajude nos seus romances, mas diz que tem vergonha de beijar alguém na minha frente. Você me pede em casamento, mas nem me beija quando eu digo que vou embora.

Eu sei. Você brinca de querer se casar comigo. E eu confesso, brinco também com diversas pessoas e já até distribui alianças de papel por aí, mas não com alguém que assumidamente diz gostar de mim. Como num ato cruel de alimentar um ser só ao ponto de mantê-lo vivo, mas não de mantê-lo em pé. Minha cabeça se confunde entre meu papel de amigo e minhas obrigações de namorado.

Você foi minha paixão a infância. Eu não tinha coragem nem para beijar na boca, mas quando fiquei mais velho compreendi que aquela proximidade exacerbada não era só amizade. Era um amor pueril, sem conotação sexual, sem pretensão de casamento, sem intuito de se tornar real, mas ainda sim amor de homem para mulher.

Talvez as pessoas que me vêem hoje não imaginam o ser anti-social que fui quando criança. Eu tinha pavor quando algum amigo de escola pedia para ir em casa depois da aula. Como que se eu guardasse segredos de liquidificador eu inventava mil desculpas na esperança que desistissem, e no fim, todos desistiam. Nunca recebi visitas, nunca reuni para trabalhos escolares em casa, nunca compreendi o porque eu era assim. Até que numa manhã você me visitou de surpresa e quebrou toda minha falsa proteção do mundo. Talvez por isso você seja a minha lembrança de amizade mais remota. Quando você se mudou eu era jovem demais para pedir que ficasse e sempre me imaginava numa versão paralela de um mundo em que você não partia. Sempre me questionei se nos amaríamos quando chegasse a idade correta.

E você voltou. Coincidentemente nossos planos se cruzaram como se fosse o destino me alertando que era realmente para ficarmos juntos. Você não estava como nas minhas memórias, nem no corte de cabelo. Estava melhor. Você estava mais interessante. Bonita, se vestia bem, entendia de bons perfumes, escutava Florence e tinha um futuro promissor. Como não querer alguém assim? A gente tinha uma afinidade surpreendente que nem os mais próximos conseguiam explicar como nos ligávamos tão intimamente, mas não dávamos um passo a frente.

Minha colega de sala dizia que você gostava de alguém, ela era ótima para ler comportamento sexual. Meu irmão me jurava que você era lésbica, ele tinha duas amigas assim. Minha mãe tentava explicar que era tudo falta de maturidade, ela sempre foi racional ao analisar os fatos. Meu melhor amigo dizia que você tinha medo e dizia te compreender, por ser assim também.  Meu primo profetizou que iríamos nos casar e ele seria o padrinho. O menino do prédio em frente ao meu falou que eu precisava conhecer novas pessoas. O Dr. Love da estação de rádio da faculdade dizia que era amor, mas ele nem nos conhecia.

Criei uma obsessão por você maior do que qualquer sentimento. Era a pessoa perfeita para mim e tínhamos toda aquela afinidade já dita. Então mesmo após todos os seus insistentes não’s, repeti infinitas vezes sim’s, tentando dar vida a criaturas que não existiam. 

Fiquei tão obsessivo que não vi o sentimento morrer dentro de mim. Você sempre cheia de provas da faculdade surpresa e viagens inesperadas para a cidade de seus pais. Você que me fazia esperar a semana inteira para sairmos na sexta, mas que desistia por desculpas tão banais, não respeitando meu sofrimento de espera. Você que todos os meus amigos conheciam ou sabiam quem era, o que era e de onde era, e eu? Dizia estar sozinha quando te ligava, e na verdade estava comigo. Você que sofria por um defeito no seu ar condicionado, na sua feliz vida onde nunca se perdia nada, achando que eu não compreenderia seu sofrimento e se esquecendo que eu não tinha nem ventilador. Você que disse me querer ao seu lado em sua formatura, mas que o convite nunca chegou.

Morreu. Primeiro o sentimento, depois a obsessão, o carinho, a vontade de estar junto e por fim a consideração. 

Já quis tanta coisa na minha vida e depois percebi que não eram para mim. Já quis ser nadador, escoteiro, dentista, já quis morar no bairro da minha avó, tatuar trecho da musica dos Beatles, colecionar moedas. Já quis participar de um reality show, fazer plástica no nariz, ver um filme por dia, ler um livro por mês, já quis você.

Quando abrimos uma porta para alguém, fechamos diversas possibilidades para o mundo inteiro. E sinceramente, não vejo pontos positivos em deixar um espaço para você. Hoje em dia não preciso de você para me acompanhar na volta para casa, nem mesmo para esquentar os meus dedos do pé no inverno. Porque até o tempo resolveu me ajudar e decidiu fazer calor o ano inteiro. (Vinícius D'Ávila)
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Saturday, January 05, 2013

A novata da 4ª D



Você era a menina mais desejada da 4ª D. Não que fosse a mais bonita da sala, mas ser nova no colégio despertava um maior querer entre nós. Todos os meninos queriam ser seu par na quadrilha. Todas as meninas queriam passar o recreio com você. Estávamos na puberdade e o início da adolescência é a fase que nos encontramos nas piores condições físicas. As partes do nosso rosto estão desproporcionais e nosso peso nunca é o ideal. Somos magros ou gordos demais. As meninas não possuíam ainda a vaidade feminina e os meninos tinham aquele inicial bigode ralo. E se nas minhas fotos dessa época, éramos todos feios, na minha memória você estava sempre bonita chegando no seu primeiro dia de aula com sua merendeira quadriculada de preto e branco.

No início do ano passava todo o recreio com o magrelo alto da sala. Você tirava da lancheira uma garrafa de suco vermelho religiosamente todos os dias fazendo criar em mim uma nova obsessão. "Amanhã quero um suco vermelho, mãe". Minha mãe não compreendia meu gosto repentino por sucos rubro, mas talvez se entendesse mais de amor, saberia que não era uma questão de gosto e sim de coração. Fomos alternando meus lanches com acerola, goiaba e morango, algum dia poderia me pedir um gole e eu não queria errar seu sabor favorito quando isso acontecesse. Mas nunca me pediu. Enquanto isso compartilhava em dois copos iguais seu indecifrável suco de melancia. Uma pra você e um para ele, mas nunca para mim.

Nos trabalhos de sala sentava com a menina negra que falava alto ou com o gordinho que sentava atrás de mim. Ele tinha uma caixa de lápis de 36 cores e eu na minha infinita ignorância nunca imaginei que existiriam mais de sete, até que ele retirou da mochila aqueles azuis de diferentes tonalidades e alguns verdes que eu não conseguia diferenciar. Aproveitei o meu aniversário e pedi um mega-hipe-super estojo de desenhar que passava nos comercias do intervalo da novela. Imenso. Com tintas que nunca seriam usadas, giz de cera que se quebrariam antes de serem gastos, cores que eu não sabia o nome, lápis de vários tamanhos e várias texturas. Meu pai achava bonito o filho querendo ser desenhista, mas ele entenderia minhas aflições se comprasse com mais freqüência presentes para agradar mamãe.

No meio do ano seu par de quadrilha foi o menino com apelido de desenho animado. Eu passei uma semana inteira melhorando e ensaiando meus passos na tentativa frustrada de conseguir algumas posições na fila dos casais. Mas a Dona Mirtes, já estava convencida que vocês seriam os noivos perfeitos. E na verdade foram. Minha mãe comprou uma blusa xadrez vermelha e branca e ficou brincando para eu tomar cuidado e não deitar no chão se não uma família inteira poderia fazer piquenique em mim. A moça que trabalhava lá em casa desenhou a barba e a cada traço riscado no meu rosto juvenil ela dizia como os homens ficavam melhores assim. Eu parti para nossa festa junina acreditando que era isso que faltava para você olhar para mim. 

Teve uma hora na troca dos pares que nossos braços quase se cruzaram, mas gritaram algo e todos tiveram que retornar. Maldita dança. Perdi o concurso de rei e rainha da pipoca por miseráveis dois votos. Cada voto custava 10 centavos, e foi a primeira coisa que tentei vender na vida. Vendi para as amigas da minha mãe do terço, para o grupo de caminhada da terceira idade da minha avó, para todos do turno vespertino, para os meninos da faculdade que pegavam carona com meu irmão mais velho e até eu comprei 10 por dia com meu dinheiro do lanche. Eu só soube o valor de 20 centavos quando eles me distanciaram de você. Os ganhadores desfilariam com os noivos e eu quis tanto ser seu rei. Seu rei naquela noite era o menino loiro de olhos azuis que não batalhou nada para estar ali. Vendeu todos os bilhetes para um só comprador. Fui embora com a barba borrada, sem título, sem você.

Em outubro, no nosso último dia das crianças - digo último porque a partir da quinta série a única participação dos alunos nessa festa era espiando pela janela do galpão - você convidou dois meninos de outra sala pra jogar o seu "detetive" com você. Eu era ótimo nesse jogo e queria te avisar que o assassino era o Celular Mostarda, mas eu não tinha coragem de falar com você e não sabia que Cel. significava coronel. Sai pra jogar meu “cara a cara” e deixei você lá. Rapidamente se enjoaria deles, como enjoou de todos os outros.

Já na véspera da formatura, precisávamos preparar a celebração. Nossa altura fez por mim o que nem sucos de melancias foram capazes de fazer. Dona Mirtes dessa vez me colocou do seu lado para entrar e por uma semana ensaiamos de mãos dadas e trocamos mais palavras do que um ano inteiro. Olhando de longe nem imaginávamos o que só comprovamos de perto: éramos tão parecidos. No dia da formatura nosso sorriso seria tão grandioso que familiares de outros formandos estarrecidos nos fotografariam sem entender como dois jovens poderiam sorrir tanto apenas por irem para a quinta série. Eu sorriria por você. Só isso. Eu tentava não me iludir, porque na próxima data festiva você já escolheria um novo par, porque um espirro nos separava das férias de dezembro, porque nós não sabíamos aonde você estaria.

Você havia vindo de outra cidade e todos nós estudamos naquele colégio a vida toda. Férias após férias nos reencontrando em fevereiro atrás de fevereiro. Todo adeus era breve. Você não entendia a ligação que já havíamos formado desde o maternal, e nem entendíamos como era sofrível para você viver uma vida sem laços. Você já estava acostumada a não se acostumar, por isso mudava constantemente de melhores amigos enquanto nenhum de nós conseguíamos mudar de você. Você fez com que passássemos o que você passou por toda a vida. Soubemos como dói todo verão ter que explicar a todos suas brincadeiras favoritas ou seu gosto por suco de melancia.

A ideia veio das mãos de Dona Mirtes. Todos os adultos que eu conhecia usavam alianças e quando a questionei o porque não usava, ela me explicou que havia se divorciado, e as pessoas só usam alianças enquanto querem continuar juntas. Na nossa festa que seria teoricamente nosso último dia juntos, eu peguei dois guardanapos de papel e enrolei até que se tornassem suas alianças. Você sorriu sem entender o que eu estava te dando, mas colocou nos dedos quando eu te expliquei que era pra ficarmos juntos. Fomos os últimos a irmos embora do baile e olhando da janela do carro fiz minha mãe dar uma risada com meus questionamentos se faltava muito para as férias acabarem.

Ela olhava pelo retrovisor para mim, tentando decifrar a razão das minhas mãos fechadas, mas nem se ela perguntasse eu conseguiria explicar. Na volta para casa fechei as mãos com o máximo de força que tinha, dentro dela guardava a única coisa que ainda te ligava a mim. 

(Vinícius D'Ávila)
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Saturday, November 10, 2012

Apaixonado em todos os sentidos


"Andei sonhando um pouco, também. Ainda não é proibido, mas tem um preço. Depois andei tentando não sonhar, mas isso também tem um preço. Não tenha expectativas, me disseram. Fiquei tentando não ter expectativas - essa coisa que amolda e desenha o futuro? Me pareceu tão seco."
(Caio F. Abreu in Despedida provisória - A Vida gritando nos cantos)


Foi o olfato meu primeiro sentido a ser conquistado. Abri as portas de casa e fiquei me perguntando se havia loja no mundo que vendia um perfume tão bom ou era meu inconsciente e destino trabalhando juntos para que eu gostasse de você. Foi ai que me tornei um pouco João e Maria, só que ao invés de migalhas eu seguia seu perfume e ao invés de floresta encantada eu morava no mesmo prédio que você.

Agora era a vez dos meus olhos. Nos trombamos na escada e meu nariz avisava a todo corpo que era você, eu baixei meus olhos e te fiz pensar que era medo de tropeçar, mas o medo era de me perder em você.

E a partir dai nossos caminhos foram se cruzando tantas vezes por dia que eu passei acreditar mais em Deus. Morávamos no mesmo prédio, malhávamos na mesma academia, estudávamos na mesma faculdade, mas nem sabíamos o nome um do outro. Certa vez, enquanto malhava, você deixou sua ficha próximo a mim e foi beber água. Li seu nome fingindo que amarrava o tênis e antes de comemorar me questionei do que adiantava ter essa informação a não ser te acrescentar em minhas orações. Mesmo sem querer eu já sabia tanto de você.

Eu sabia que você morava um andar acima do meu e apesar de terem quatro apartamentos, cada um com outros quatro quartos, eu gostava de acreditar que o seu quarto era o de cima do meu. E eu escutava o nheco nheco de sua cama em algumas sextas durante a madrugada te odiando por não ser eu. Ficava me perguntando se era sexualmente promiscua ou se tinha alguém. Mas nunca te vi de casal, sempre em grupos ou sozinha, o que fazia a primeira opção ser mais real.

Eu achava sua vida tão interessante escutando você falar com sua amiga do seu dia enquanto pedalava naquela bicicleta que não saia do lugar. Meus ouvidos também já estavam apaixonados, mas ele me trazia a realidade que sua vida era interessante demais para me permitir entrar.

Eu tinha uma vida mais rotineira, almoçando sempre no mesmo lugar e até assustei quando vi você entrar. Não havia mais mesas disponíveis e você me perguntou se eu me importava que sentasse ali. Eu quis responder que me importaria se não sentasse, mas apenas olhei e te disse sim. A nova garçonete daquele dia sorria tanto ao nos atender que eu me perguntei se ela recebia pra ser gentil assim. Ninguém sorri tanto de graça.

Eu nunca peço nada para beber, mas ai pedi suco de abacaxi com hortelã para soar mais interessante. Sempre admirei pessoas que combinavam sabores. Com gelo e sem açúcar. Bendito sejam os inventores dos adoçantes, nossos dedos se cruzaram quando eu passei para você adoçar o seu. E me perdoe os outros sentidos, o tato foi o melhor deles, se era possível sentir prazer com toque das pontas dos dedos, imagina o corpo inteiro?

Conversamos tanto durante o almoço que deixei minha comida toda no prato, medalhão nenhum superaria o prazer de conversar com você. E você não imagina o quão eu gosto de medalhão. Passei tantos tempo observando você que já te via como um personagem inatingível, que naquele almoço ali eu permiti alimentar a esperança do meu paladar de também te conhecer.

Estranhei quando percebi que aquela garçonete que nos servia, não sorria tanto para as outras mesas. Ela atendia todos com uma invejável cordialidade para quem trabalha em pé durante todo o dia, mas ainda sim, sem sorrir tanto.

Foi então que o espelho por trás do balcão me deu a razão. O sorriso ao nos atender era só resposta. Quem sorria grandioso daquele jeito era eu. (Vinícius D'Ávila)
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